Nessa altura do ano, provavelmente você leitor já deve ter assistido ou lido alguma crítica sobre “12 Anos de Escravidão”, produção cinematográfica que muito provavelmente vencerá o cobiçado Oscar de Melhor Filme este ano.

Se já viu o filme, como libertário ou simpatizante do ideário libertário, não há muito o que possa te dizer. Você provavelmente sabe que fomos nós, os liberais e anarquistas individualistas, que abraçaram e lideraram ativamente a luta contra a escravidão, especialmente durante o século XIX. Nomes como o americano Lysander Spooner e Henry Thoreau, além do brasileiro Joaquim Nabuco se destacam.

Se já leu as inúmeras resenhas dos críticos em jornais ou em sites, sendo um cinéfilo ou apreciador de filmes, também não há muito mais o que eu possa acrescentar. O filme é bom; a história é naturalmente chocante; no caso dos EUA, há o fato de que foi a 151 anos atrás que escravidão era abolida por lá (ano passado no Oscar, dois filmes sobre a escravidão também se fizeram presente, “Lincoln” e “Django Livre”); as atuações, especialmente as de Chiwetel Ejiofor como o Solomon Northup (o homem livre que é transformado em escravo) e Michael Fassbender (como um dos donos de escravos no estado da Louisiana) se destacam.

Há também os desdobramentos que o filme já causou, como o fato de que o livro homônimo escrito por Solomon, que serviu de base para a produção, será distribuído gratuitamente nas escolas públicas americanas para servir de apoio nas aulas de história.

Então sobre o que resta comentar? O escritor e cientista político português João Pereira Coutinho levantou recentemente na sua última coluna na Folha um lado dessa temática que é pouco explorada nos dias de hoje:

“A escravidão ainda é uma das maiores vergonhas da humanidade. E o fato de o Ocidente não ocupar mais o topo da lista como responsável pelo crime não deve ser motivo para esquecermos ou escondermos a ignomínia. Anos atrás, lembro-me de um livro aterrador de Benjamin Skinner que ficou gravado nos meus neurônios. Intitulava-se “A Crime So Monstrous” (Um Crime tão Monstruoso) e Skinner ocupava-se da escravidão moderna para chegar a conclusão aterradora: existem hoje mais escravos do que em qualquer outra época da história humana. […] A escravidão que ele denunciava com dureza era a velha escravidão clássica — a exploração braçal e brutal de milhares ou milhões de seres humanos trabalhando em plantações ou pedreiras ao som do chicote. […] Pois bem: o livro de Skinner tem novos desenvolvimentos com o maior estudo jamais feito sobre a escravidão atual. Promovido pela AssociaçãoWalk Free, o Global Slavery Index, é um belo retrato da nossa miséria contemporânea. Em termos relativos, a Mauritânia continua no topo da lista: com uma população que não chega aos 4 milhões, o país terá entre 140 mil a 160 mil escravos. O Haiti vem a seguir, sobretudo com a escravidão infantil. Em 10 milhões de haitianos, 200 mil não conhecem a palavra “liberdade”. O Paquistão sobe a parada e, sobretudo nas zonas fronteiriças com o Afeganistão, é provável encontrar qualquer coisa como 2 milhões de escravos. A Índia, tal como o livro de Benjamin Skinner já anunciava, continua a espantar o mundo em termos absolutos com um número que hoje oscila entre os 13 milhões e os 14 milhões de escravos. Falamos, na grande maioria, de gente que continua a trabalhar uma vida inteira para pagar as chamadas “dívidas transgeracionais” em condições semelhantes às dos escravos do Brasil nas roças.”

A associação a qual Coutinho se refere em seu texto ganhou destaque a pouco tempo na revista Vejapor ser uma criação do bilionário australiano Andrew Forrest ao lado do antropólogo e sociólogo britânico Kevin Bales, famoso neoabolicionista, que tem como meta ambiciosa acabar com a escravidão no mundo contemporâneo. É possível conferir o mapa da escravidão moderna aqui. Destaque para o seguinte trecho da matéria:

“O primeiro fruto da Walk Free, lançado em outubro, é um mapeamento da exploração da mão-de-obra em 162 países do mundo. Sem surpresa, o relatório atesta a correlação entre servidão e uma série de indicadores, como pobreza, desenvolvimento humano (IDH) e corrupção. O dado assombroso: nenhum país do mundo está livre da vergonha. Os dez casos mais graves: Mauritânia, Haiti, Paquistão, Índia, Nepal, Moldávia, Benin, Costa do Marfim, Gâmbia e Gabão. Os dez menos: Dinamarca, Finlândia, Luxemburgo, Noruega, Suécia, Suíça, Nova Zelândia, Grã-Bretanha, Irlanda e, o país mais seguro, Islândia. Total no mundo: 29,8 milhões de escravos (2,8 milhões a mais que a estimativa preliminar de Bales), o equivalente à soma das seis cidades mais populosas do Brasil. Ou uma em cada 239 pessoas no planeta.”

Ainda na Veja, o economista, colunista e blogueiro Rodrigo Constantino também abordou em vídeo, motivado pelo texto de Coutinho, sobre a atualidade do problema da escravidão:

Decidi me juntar a este coro: está na hora dos libertários retomarem a luta contra a escravidão, levantarem novamente a bandeira da liberdade individual contra essa odiosa e milenar prática, defender acirradamente e continuamente o respeito ao ser humano, inclusive nos recantos mais distantes e sombrios do mundo.

Sim, somos todos ainda, em menor ou maior grau, escravos “públicos” ou “privados”. A defesa da liberdade é vasta e ampla, mas contínua e incansável. Com certeza existem formas dissimuladas de nos escravizar e aquelas que abertas e escancaradas. Os libertários há várias décadas vem se dedicando a conscientizar as pessoas sobre a escravidão estatal que nos é imposta. É uma tarefa louvável e importante. Contudo, mais do que nunca, precisamos também nos dedicar a finalizar de uma vez a batalha contra um tipo de escravidão que fomos historicamente bem sucedidos, ao menos no Ocidente.

Thoreau afirmou que “a escravidão e o servilismo não produzem qualquer flor cheirosa para encantar os sentidos do homem na estação correta, pois eles não têm uma vida real; nada mais são do que um apodrecimento e uma morte, que agridem as narinas saudáveis”[1].

Cabe indagar: os libertários continuarão a abrir as janelas para amenizar esse odor ou vão se voltar para os seus antepassados e buscarem combater a sua causa de tamanha podridão?

Publicado originalmente no Liberzone.