A economia da Itália Fascista frequentemente é ignorada ou banalizada graças a quantidade de elementos dela que podemos encontrar na economia contemporânea. Considere alguns pontos da economia fascista: planejamento central, grandes subsídios estatais, protecionismo (impostos de importação altos), muitas estatizações, corporativismo sem limites, grandes déficits, gastos governamentais elevados, assistência financeira à bancos e indústrias, burocracia massacrante, programas assistencialistas, dívida pública gigante, surtos de inflação e “uma estrutura econômica altamente regulada, integrada e segmentada por classes. ” [1]

Em diversas ocasiões, Benito Mussolini identificou suas políticas econômicas como “capitalismo de estado” – a mesma frase usada por Vladimir Lenin ao apresentar sua Nova Política Econômica (NEP). Lenin disse: “O capitalismo de estado seria um passo à frente se comparado com a situação atual das coisas em nossa República Soviética. ” [2]. Após o colapso econômico da Rússia em 1921, Lenin autorizou privatizações e atividades privadas, deixando as pessoas negociarem, comprarem e venderem visando lucros privados. [3] Lenin estava transitando para uma economia mista. Ele até ordenou que empresas estatais operassem sob o sistema de lucros e prejuízos. [4] Lenin reconheceu que teria que desistir do socialismo completo e permitir a existência de algum capitalismo.

Mussolini seguiu o exemplo de Lenin e prosseguiu com o estabelecimento de uma economia regulada pelo estado na Itália. Em suma, o fascismo de Mussolini era somente uma imitação da “terceira via” de Lenin, combinando mecanismos do capitalismo de mercado e socialismo – algo parecido com o “mercado socialista” chinês. Basicamente, Lenin remodelou o marxismo o transformando em um “socialismo light”, o que inspirou Mussolini a desenvolver seu próprio do fascismo italiano com uma leve flexão à direita. Assim, podemos dizer que as políticas de Vladimir Lenin foram as primeiras versões do fascismo e do corporativismo.

O economista Ludwig von Mises, que escapou da expansão nazista na Europa, argumentou que “o programa econômico da Itália Fascista não difere do programa da Associação Socialista Britânica propagado pelos mais importantes socialistas ingleses e europeus. ” [5] [6]

Na The Concise Encyclopedia of Economics, Sheldon Richman sucintamente declara: “Como sistema econômico, o fascismo é o socialismo com um verniz capitalista. ” [7] Ele diz que o socialismo procura abolir o capitalismo completamente, enquanto o fascismo se apresenta como uma economia de mercado, mesmo girando em torno de um grande planejamento central sobre todas as atividades econômicas. De acordo com os autores Roland Sarti e Rosario Romeo, “Sob o fascismo, o estado possui um escopo de controle sobre a economia maior do que qualquer outra nação, perdendo apenas para a União Soviética.” [8]

Curiosamente, Mussolini encontrou em John Maynard Keynes muitas teorias consistentes com o fascismo, como disse: “O fascismo concorda completamente com o sr. Maynard Keynes, apesar dele ser uma referência liberal. Na verdade, ‘O fim do Laissez-Faire’ (1926), excelente livro do sr. Keynes, pode, até aqui, ser uma útil introdução à Economia Fascista. Não há quase nada nele a se opor, e muito o que aplaudir. “ [9]

Após a Grande Depressão, Mussolini se tornou mais enfático na ideia de que o fascismo rejeita explicitamente o individualismo e o laissez-faire liberal da economia capitalista. [10] No livro “Doutrina do Fascismo”, Mussolini escreveu: “A concepção Fascista da vida aceita o indivíduo somente se seus interesses coincidem com o Estado. O Fascismo reafirma os direitos do estado. Se o liberalismo clássico exala individualismo, Fascismo exala governo”. Em sua autobiografia de 1928, Mussolini deixou bem clara sua aversão ao capitalismo. “Os cidadãos no Estado Fascista não são mais indivíduos egoístas que possuem o direito de se rebelarem contra a lei da Coletividade. “ [11]

Como os efeitos da crise duraram mais do que o esperado, o governo italiano promoveu fusões e compras, socorrendo empresas quebradas e “estatizou o controle acionário de bancos, mantendo sob o seu controle grande parte do mercado. “ [12] O estado italiano assumiu empresas falidas, criou cartéis, aumentou gastos governamentais, expandiu a oferta monetária, encorajou endividamentos. [13] O governo italiano promoveu a indústria de baseestatizando-as em vez de permitir sua falência. ” [14]

Líderes fascistas definiram as Corporações Italianas como “revolucionárias”, e asseguraram que as corporações estatais iriam “garantir o progresso econômico e a justiça social.” [15] Teorias do Fascismo Italiano sobre o corporativismo surgiram do revolucionário sindicalismo nacional que frequentemente atuava lado-a-lado dos movimentos trabalhistas “independentes”. Mussolini reconheceu as influências e bases do socialismo no fascismo. Entre aqueles apontados como influências estavam Georges Sorel, marxista francês, e Hubert Lagardelle, sindicalista revolucionário francês. [16] Além disso, Mussolini era um homem sindical: decretou que todos os trabalhadores italianos fossem membros compulsórios dos seus respectivos sindicatos. É verdade que ele proibiu as greves, mas isso não é diferente do que Lenin fez na União Soviética.

Sob o governo fascista, “comissões de planejamento definiram o que seria produzido, em que quantidade, preços, salários, condições de trabalho e o tamanho de empresas. O licenciamento governamental era obrigatório; nenhuma atividade econômica poderia ocorrer sem a permissão do governo”. Tais medidas impediram negócios de nascerem ou crescerem. [17][18] Além do mais, “níveis de consumo eram definidos pelo estado, e lucro ‘excessivo’ era confiscado sob a justificativa de impostos ou ‘empréstimos’.” [19]

Na década de 30, o corporativismo estatal e o alto índice de regulamentações levaram o sistema de crédito italiano a ficar “sob o controle do estado e agências paraestatais” e, no fim da década, cerca de 80% de todo o crédito disponível era “controlado direta ou indiretamente pelo governo.” [20] Como uma guerra com a Etiópia era iminente, o governo italiano impôs um controle de preços, níveis de produção, e altos impostos. Uma balança comercial desfavorável foi inevitável, o que levou a mais restrições às importações, regras mais rígidas ao capital estrangeiro, e maior controle sobre matérias-primas. [21] Enquanto Mussolini seguiu com sua autossuficiência e impôs mais leis protecionistas, “os gastos do governo cresceram e a dívida pública aumentou 7x entre 1934 e 1937. “ [22][23]

Com a aprovação da Lei de Reforma Bancária em 1936, o Banco da Itália e os maiores bancos do país tornaram-se estatais. [24] Um ano antes, o confisco de capital havia começado com o estado decretando que todos os bancos, empresas e cidadãos entregassem seus títulos de tesouros estrangeiros ao Banco da Itália. [25]

Mussolini dobrou o número de funcionários públicos em enormes comissões e comitês. Em 1934, um em cada cinco italianos trabalhavam para o governo. [26] Havia um emaranhado de “excessivas burocracias onde as ordens de Mussolini eram constantemente perdidas ou propositalmente extraviadas.” [27]

Em maio de 1934, enquanto o Instituto de Reconstrução Industrial (IRI) começou a tomar o controle das ações de bancos, Mussolini declarou: “Três quartos da economia italiana, industrial e agrícola, estão sob o controle do estado. “[28][29] Em 1939, a Itália tinha o mais alto índice de empresas estatais do mundo, com exceção da União Soviética. [30] Naquele mesmo ano, o estado “controlava mais de 80% da indústria de transporte e construção naval, 75% da produção de aço e quase a metade da de ferro. “ [31]

Em setembro de 1943, Mussolini liderava um governo fantoche nazista chamado República Social Italiana (RSI), na qual propôs uma maior “socialização da economia”. Mostrou um renovado radicalismo de seus anos iniciais. Dizendo que nunca havia abandonado suas ideias de esquerda, [32]ele retornou a um tipo de socialismo que novamente atacava o capitalismo”, num esforço de “aniquilar as elites exploradoras” [33] Em fevereiro de 1944, seu governo aprovou a “lei da socialização” que estatizou ainda mais as indústrias, afirmando que cada trabalhador seria participante do gerenciamento das empresas, indústrias e da reforma agrária. [34] A República Social Italiana “enfatizava obsessivamente” comissões socializantes e uma “variedade de fascismo igualitário e um amplo estado de bem-estar social.” [35]

Em suma, a economia da Itália Fascista era basicamente Marxista e Sindicalista – e bem mais socialista que a economia de vários países ocidentais que implantaram um misto econômico de socialismo, sindicalismo e assistencialismo. Agora falta apenas economistas e historiadores, mesmo que tardiamente, reconhecerem esse fato.

Notas

[1] Stanley G. Payne, A History of Fascism 1914-1945, Madison: Wisconsin, University of Wisconsin Press, 1995, p. 7.

[2] V. I. Lenin, “The Tax in Kind,” escrito em 21 de abril, 1921, Lenin’s Collected Works, 1st English Edition, Progress Publishers, Moscou, 1965, Volume 32, pages 329-365.

[3] V. N. Bandera “New Economic Policy (NEP) as an Economic System,” The Journal of Political Economy, Vol. 71, No. 3 (June, 1963), 265-79: p. 268.

[4] V. N. Bandera “New Economic Policy,” p. 268.

[5] Sidney and Beatrice Webb, Constitutions for the Socialist Commonwealth of Great Britain, Londres: RU, Londres, Nova York, Longmans, Green & Co. 1920.

[6] Ludwig von Mises, Planned Chaos, Foundation for Economic Education, Irvington-on-Hudson: NY, 1970, p.73, first printing 1947.

[7] Sheldon Richman, “Fascism,” em David R. Henderson, ed., The Concise Encyclopedia of Economics, 2nd ed., (Indianapolis, Indiana: Liberty Fund, 2008). Disponível online na Library of Economics and Liberty.

[8] Franklin Hugh Adler, Italian Industrialists from Liberalism to Fascism: The Political Development of the Industrial Bourgeoisie, 1906-1934, New York: NY, Cambridge University Press, 1995, p 347; fontes originais: Rosario Romeo, Breve Storia della grande industria in Italia 1861/1961, Bologna, 1975, pp.173-4; Roland Sarti, Fascism and the Industrial Leadership in Italy, 1919-40: A Study in the Expansion of Private Power Under Fascism, 1968, p. 214.

[9] James Strachey Barnes, Universal Aspects of Fascism, Williams and Norgate, Londres: RU, 1929, pp. 113-114.

[10] Gaetano Salvemini, Under the Axe of Fascism, Londres: RU, Victor Gollancz, LTD, 1936, p. 134.

[11] Mussolini, My Autobiography, Nova York: NY, Charles Scribner’s Sons, 1928, p. 280.

[12] Michael E. Newton, The Path to Tyranny: A History of Free Society’s Descent into Tyranny, 2nd edition, Nova York: NY, Routledge, 1994, p. 170.

[13] Jeffrey Herbener, “The Vampire Economy: Italy, Germany, and the US,” Mises Institute, October 13, 2005.

[14] Newton, Path to Tyranny, p. 171.

[15] Martin Blink Horn, Mussolini and Fascist Italy, 2nd edition, Nova York: NY, Routledge, 1994, p. 29.

[16] Sternhell, Zeev, Neither Right nor Left: Fascist Ideology in France, tradução para o inglês em ed., Princeton: NJ: Princeton University Press, 1986, p. 203.

[17] Richman, “Fascism.”

[18] Gaetano Salvemini, Under the Axe of Fascism, Londres: RU, Victor Gollancz, LTD, 1936, p. 418.

[19] Richman, “Fascism.”

[20] A. James Gregor, Italian Fascism and Developmental Dictatorship, Princeton: NJ, Princeton University Press, 1979, p. 158.

[21] Alexander J. De Grand, Italian Fascism: Its Origins & Development, Lincoln: NI, University of Nebraska Press, 1982, p. 106.

[22] Michael E. Newton, The Path to Tyranny: A history of Free Society’s Descent into Tyanny, 2nd edition, Nova York: NY, Routledge, 1994, p. 173.

[23] Alexander J. De Grand, Italian Fascism: Its Origins & Development, p. 108.

[24] Alexander J. De Grand, Fascist Italy and Nazi Germany: The “Fascist” Style of Rule, segunda edição, Nova York, NY, Routledge, p. 52.

[25] Jeffrey Herbener, “The Vampire Economy: Italy, Germany, and the US,” Mises Institute, 13 de outubro, 2005.

[26] George Seldes, “The Fascist Road to Ruin: Why Italy Plans the Rape of Ethiopia,” The American League Against War and Fascism, 1935.

[27] Jim Powell, “The Economic Leadership Secrets of Benito Mussolini,” Forbes, Fev. 22, 2012.

[28] Gianni Toniolo, editor, The Oxford Handbook of the Italian Economy Since Unification, Oxford: UK, Oxford University Press, 2013, p. 59; Mussolini’s speech on May 26, 1934.

[29] Carl Schmidt, The Corporate State in Action, Londres: Victor Gollancz Ltd., 1939, pp. 153-76.

[30] Patricia Knight, Mussolini and Fascism (Questions and Analysis in History), Nova York: Routledge, 2003, p. 65.

[31] Martin Blink Horn, Mussolini and Fascist Italy, 2nd edition, Nova York: NY, Routledge, 1994, p. 35.

[32] Denis Mack Smith, Mussolini: A Biography, Nova York: NY, Vintage Books, p. 31.

[33] Stephen J. Lee, European Dictatorships 1918-1945, 3rd edition, Nova York: NY, Routledge, 2008, p. 17.

[34] Stephen J. Lee, European Dictatorships, p. 171-172.

[35] R.J.B. Bosworth, Mussolini’s Italy: Life Under the Fascist Dictatorship,1915-1945, Nova York, NY, Penguin Press, 2006, p. 523)

// Tradução de José Pagio.| Artigo Original