A raça humana, como uma entidade, não aprende muito bem. Nós não somos muito ensináveis – somos? Nós não somos rápidos para identificar padrões, similaridades; aquelas vezes em que sua intuição lhe diz “Espera, nós vimos isso antes em algum lugar”. Talvez seja por isso que nós lidamos com todas as tragédias iminentes da mesma maneira – automaticamente negando o que nós não queremos ver, tendo fé que aquilo não irá acontecer novamente (apesar de saber que você está errado), com medo de dizer algo pessimista onde haters e zombeteiros irão nos apontar como “problemáticos”. “Pera um pouco” eles dirão como sempre, com seu desprezo ecoando pelo ciberespaço, “não fique tão animado,” quando nós trazemos à tona a catástrofe que está para ocorrer.

A inação descansa calmamente em um berço de incredulidade.

Eu não estava vivo durante a Segunda Guerra Mundial, mas as histórias descrevem bem o ceticismo. “Isso não pode ser verdade,” disseram os experts sobre o holocausto, “esse é o século XX, isso não pode ocorrer agora! Essa é a Europa, isso não pode acontecer aqui.” Ainda assim, o holocausto aconteceu. O mesmo aconteceu durante o genocídio em Ruanda – os comandantes da ONU mandando seus relatórios cada vez mais desesperados de volta à sede em Nova Iorque, para ficarem soterrados debaixo de uma pilha de outros relatórios em mesas de burocratas que haviam saído para o happy hour, para o teatro ou para a ópera. “Não exagere”, foi sua resposta, “nós não podemos nos deixar levar pela histeria.” As circunstâncias foram similares para os campos de execução de Stalin? Foi assim que a fome começou na Etiópia? A desintegração da Iugoslávia? Ainda não nos comportamos assim sobre as prisões para tortura na Coréia do Norte? 250 mil prisioneiros políticos; “Não, não pode ser. Eu vi as fotos, não parece tão ruim assim… não exagere, por favor.”

O governo venezuelano está cada vez mais parecido com o Khmer Vermelho. Não como o comunismo castrista, sob o peso opressor de um poderoso chefão velho e barbudo, acabando com qualquer sonho, ideia, ou leitura; qualquer atividade – seja ela econômica ou não. Uma inércia prolongada, uma nação sentada no meio-fio enquanto envelhece. Mas nada para os jornais, certo? Também não é estalinista – um expurgo gigantesco organizado em meio a atos exaltados de desobediência nacional; universidades excepcionais e grandes gulags; teatros majestosos e prisões prodígias – astronautas e atletas, filósofos e físicos – e massacre. Também não é Maoísta – os grandes saltos para frente, em direção à fome – obra dos planejadores. Esses foram os sonhos do Bolivarianismo de Hugo Chávez.

Não, a Venezuela de Nicolás Maduro é decididamente “Vermelha” – a glorificação da ignorância, estupidez; um governo carcereiro apagando as luzes da civilização.

Eu também não nasci durante os dias antes dos campos de extermínio, então eu também não tenho um sentido natural daquela negação. “Não pode ser tão ruim,” deve ter sido algum tipo de reação e “não, eles nunca fariam isso” ou, o mais provável, “eles não podem durar muito mais tempo – eles são uma força exaurida, eles devem se render em breve.” Quanto a isso, eu imagino que deve ter sido bem parecido com o que está acontecendo com a Venezuela. Enquanto os comunistas profissionais fogem, se desassociando rapidamente de mais um experimento fracassado, o governo se tornou mais insano. A derrocada o tornou mais deliberado – de alguma maneira mais carnal. As velhas discussões sobre ideais e utopias acabaram; agora eles falam sobre funções do organismo. Eles falam, entre risadinhas, sobre sexo; sua tortura se torna mais corporal – excremento e nudez e sexo. Enquanto os grandes pensadores fogem do mundo que suas ideias mal concebidas criaram, e seus antigos aliados caem ou viram suas costas ao grotesco, a nova liderança recua desesperadamente com seus argumentos de autossuficiência, criando leis de trabalho forçado, racionamento, e um sistema ainda mais sinistro de discriminação, baseado na identidade. A fome retorna. O nacionalismo extremo substituiu o fracassado pan-latinoamericanismo de Hugo Chávez. Desaparecimentos. Expulsões. Silêncio.

Escuridão.

Nada disso é um bom presságio para o futuro. Sim, eu com certeza serei chamado de alarmista. Eu fui chamado assim uma década atrás, quando o boom do petróleo de Hugo Chávez embriagou um continente. Não importa. Evitar os campos de extermínio bolivarianos deve ser nosso objetivo principal.

Tradução de Vinicius Cintra | Artigo original.