É o bem maior para o maior número de pessoas que é a medida de certo e errado. – Jeremy Bentham

Os ossos de Jeremy Bentham podem estar guardados na University College London, mas o seu fantasma está passeando pelos corredores das universidades e dos edifícios governamentais, influenciando as pessoas. Essas pessoas, de outra forma inteligentes, estão se dedicando ao que é chamado de “economia da felicidade”. Por algumas razões que explicarei mais abaixo, isso devia nos deixar muito tristes.

Jeremy Bentham é um pensador que, no século XVIII, propôs o “utilitarismo”. Uma teoria moral que basicamente afirma que “bom” ou “moral” é qualquer ação ou política que contribua para a maior felicidade total na sociedade. Bentham acreditava que você poderia desenvolver um “cálculo hedonista” – uma medida objetiva da felicidade. Não é por acaso que algumas formas de economia de bem-estar derivaram dessa ideia. Na verdade, alguns consideram Bentham o fundador da ciência econômica moderna. Gostaria de adverti-los: o utilitarismo é uma ideia falida.

Os principais problemas do utilitarismo são:

  • É impossível medir felicidade ou bem-estar (apesar de milhares de questionários);
  • A felicidade é essencialmente pessoal – isto é, subjetiva.
  • Tentar agregar a felicidade significa pensar na “sociedade” como um ser que sente felicidade.
  • Políticas derivadas do utilitarismo ignoram os direitos individuais;
  • Permite àqueles que clamam saber como tornar a sociedade “mais feliz” chegar ao poder.
  • Os seus proponentes normalmente chegam à conclusão de que a redistribuição de riqueza satisfaz o princípio da utilidade, mesmo a sua metodologia sendo falha.
  • E muito mais.

O utilitarismo não pode resolver esses problemas. Mas a pesquisa sobre felicidade e a “economia da felicidade” é, na verdade, o utilitarismo mainstream embrulhado com pesquisas e questionários. Por isso a suspeita é justificada.

Utilitarismo requentado

Veja o argumento recente de Kentaro Toyama em prol da economia da felicidade no The Atlantic. No texto “Por uma economia baseada na felicidade”, Toyama conclui que:

Propor políticas públicas com base nas pesquisas sobre felicidade seria, no mínimo, controverso. Os críticos, especialmente da direita, podem acusar Washington de estar se utilizando de suposições baratas sobre dinheiro e felicidade para mudar a política tributária e a política de serviços sociais. Não há como negar que relações causais entre renda e felicidade ainda não foram estabelecidas, e nos preocupamos mais com valores que com igualdade de renda. Contudo, focar no logaritmo da renda pode nos fazer prestar um pouco mais de atenção ao terceiro direito aclamado por Thomas Jefferson na Declaração da Independência.

Antes de qualquer outra coisa, devemos defender Thomas Jefferson. O objetivo daquele “terceiro direito” (a busca da felicidade) é que é um direito a uma “busca”, não a um resultado. A economia do bem-estar e as chamadas políticas “baseadas na felicidade” são, por natureza, ambivalentes com respeito a buscas. Na verdade, o ponto central do utilitarismo é que ele está preocupado com consequências – por exemplo, a medida de felicidade em determinado período de tempo.

Da mesma forma, a redistribuição de riqueza diz respeito ao objetivo da redução da desigualdade de renda. Jefferson quis dizer algo muito diferente quando escreveu a Declaração. Em outras palavras, Jefferson não estava preocupado se você se tornaria feliz – ou rico – mas que tivesse a liberdade de buscar a felicidade da forma que preferisse. Diversos meios e diversos fins. Eu não sei o que é mais preocupante: a confusão sobre o termo “busca da felicidade” ou a fusão da frase “todos os homens são criados iguais” com preocupações relativas à igualdade de renda. Uma digressão é bem-vinda.

Eudaimonia

Utilitaristas como Toyama raramente se preocupam com as questões eudemonistas: um indivíduo seria mais feliz trabalhando por sua renda ou a recebendo sem esforço? Existe alguma dignidade nas políticas assistencialistas? E quando falamos de riqueza, o que realmente torna as pessoas felizes – conquistá-la ou recebê-la como esmola? Por que não ambas as situações? Aristóteles descreveu uma forma de felicidade que advém de uma vida de propósitos, contemplativa. Os pesquisadores da felicidade fariam bem em revisar o trabalho do filósofo grego, assim como a psicologia positiva de Mihaly Csikszentmihalyi, que modernizou a ideia da felicidade do fazer.

Se você acha que estou pegando pesado demais com Toyama, considere essa passagem:

{Pesquisas recentes] também enfatizam algo que a maioria dos economistas está menos disposto a discutir. Central à análise de Stevenson e Wolfers é o uso de uma escala logarítmica que relaciona felicidade com a renda. O que se correlaciona com um incremento fixo de felicidade não é o aumento de um dólar na renda absoluta (por exemplo, US$ 1000 adicionais), mas um incremente percentual (por exemplo, um adicional de 100%). Então, a variação de renda anual de US$ 5000 para US$ 50.000 equivale à felicidade adicional que a variação de US$ 50 para US$ 500, ou de U$ 500 para US$ 5 milhões, ou mesmo de US$ 5 milhões para US$ 50 milhões.

O que uma “escala logarítmica” tem a nos dizer sobre a felicidade de um indivíduo que vive uma vida significativa? E sobre a felicidade de vencer na vida? E os incentivos individuais, ou aqueles incentivos criados pelas instituições? E os tradeoffs com os quais nos deparamos para aumentar o bem-estar quando vivemos em uma família e com vizinhos que passam pelo mesmo processo? A verdade é a seguinte: uma escala logarítmica não nos diz nada de proveitoso sobre essas questões. E tampouco o faz a pesquisa a qual recorre o Sr. Toyama. É a granularidade do contexto que sempre iludirá os pesquisadores da felicidade, mas onde as respostas sobre a felicidade podem realmente ser encontradas.

Mas aqui está uma passagem que realmente trai a tendência benthamita de Toyama:

Ainda assim, se os legisladores levassem a sério a utilidade, eles poderiam utilizar o logaritmo da riqueza pessoal, e somar o número de habitantes para obter uma estimativa do bem-estar nacional. Embora isso fosse negligenciar outros componentes do bem-estar, essa estimativa focaria mais na desigualdade de renda: dez pessoas, cada uma recebendo US$ 100 mil dólares teriam felicidade muito maior que nove pessoas recebendo US$ 10 mil dólares e uma pessoa US$ 910 mil dólares, mesmo que cada grupo receba os mesmos US$ 1 milhão.

E essa é a frase-clímax de Toyama: felicidade é redistribuição de riqueza. Como ele sabe que essas pessoas serão mais felizes? O que ele quer dizer por “obter”? E ele considera que a administração pode ser um fator importante na manutenção da riqueza, como essas histórias de ganhadores da loteria sugerem? Uma conexão entre posses e felicidade não pode ser estabelecida simplesmente pela sua justaposição. Novamente, as circunstâncias de sua riqueza são os fatores-chave na explicação da felicidade.

Utilitaristas estão muito ocupados derivando correlações de abstrações estatísticas. Parece que estão também muito ocupados se preocupando com qual grupo tem quais posses e tentando conectar isso a algo que é fundamentalmente pessoal. Ao simplificar as coisas dessa forma, os pesquisadores da felicidade são capazes de usar o chamado “gap” entre ricos e pobres como um instrumento de ataque aos ricos. O problema é que os ricos sempre são produtivos. E a produtividade é um determinante-chave do crescimento – o qual aumenta o bem-estar em um número de dimensões. Se você tributa a produtividade e recompensa a ociosidade, você provavelmente receberá pelo que pagou. Não importa. Circunstâncias de tempo e lugar são irrelevantes para esses utilitaristas. E as consequências não intencionais parecem desaparecer…

Salário e felicidade

Toyama encontra seu momento “ah ha” em estudos sobre renda:

Colocando de outro jeito, quando a renda aumenta, todo o dólar adicional representa um pequeno incremento de felicidade. Até certo ponto, isso é perfeitamente óbvio. O primeiro aumento de US$ 45 – de $5 para 50$ – tiraria a família da fome e da miséria e a colocaria bem alimentada em um bom apartamento, provavelmente com uma TV. Um renda adicional de US$ 45 a US$ 95 pode permitir alguns luxos, mas certamente nada perto da diferença entre fome e a classe média!

OK, provavelmente é mais fácil ser feliz dispondo de alimento e moradia. E essa intuição ressoa com leitores afluentes do The Atlantic que imaginam quão infelizes eles seriam se, de repente, recebessem US$ 17 mil dólares por ano. Então, realmente não necessitamos de uma escala logarítmica para provar o que é intuitivo (embora não esteja claro que não existem contraexemplos significativos).

Ainda, talvez possamos concordar que uma renda acima de U$$ 45 mil dólares somente nos tornará marginalmente feliz comparado com sair da miséria e entrar na classe média. A maioria das pessoas tem um limite inferior e um limite superior no que tange à felicidade que é considerada uma média natural, que tem a ver com os níveis de neurotransmissores. Esse é um insight mais da ciência cognitiva que a economia. Realmente, se os líderes realmente quisessem ser utilitaristas, eles poderiam simplesmente colocar Prozac na água e não se preocupar com a desigualdade. Mas nós recuamos nesse pensamento porque sabemos que – em algum nível – nossas emoções conectam-se de forma única às nossas experiências individuais. E, eu me aventuro a dizer, ao que procuramos.

Então, o ponto fundamental é, mesmo que alguém realmente fique mais feliz quando sua renda salta de US$ 50.000 para US$ 500.000 – e que a felicidade é mantida no decorrer da vida de um indivíduo (algo duvidoso) – isso nos diz pouco sobre o porquê elas se tornaram mais felizes. Em outras palavras, é bem possível que esses indivíduos se tornaram mais felizes por causa de sua jornada, não somente por terem chegado ao seu destino final.

Alguém do grupo de pessoas que preencheu os questionários de Stevenson e Wolfer deixou seu trabalho chato para trabalhar em um negócio de sucesso? Alguém voltou aos estudos para aprender algum tipo de trabalho que pagasse mais e o deixasse mais realizado? Alguém está ficando mais satisfeito por trabalhar em um local que ganha mais? Alguém ficou feliz pela oportunidade de conceder parte de sua riqueza por meio de impostos? Ou eles simplesmente ganharam na loteria? Novamente, por que essas pessoas estão mais felizes? Correção: por que cada indivíduo está mais feliz? Os geeks não podem nos dizer, já que as “relações causais entre renda e felicidade ainda não foram estabelecidas”. E nunca serão.

Por fim, a utilidade marginal decrescente da renda não tem nada a nos dizer sobre os mecanismos pelos quais as pessoas podem saltar de forma mais eficiente e sustentável de US$ 0 para US$ 45. Isto é, existem aspectos funcionais da criação de riqueza e mobilidade ascendente que têm pouco a ver com a felicidade per se. Mas esses aspectos funcionais têm muito a ver com o porquê as politicas redistributivas falham. Por exemplo, os economistas do bem-estar têm empreendido esforços de ajuda humanitária externa na África por mais de 50 anos. Não está claro que seus efeitos tenham sido muito positivos. Alguns argumentam que causou muitos danos. Mas o prejuízo não foi somente ao bem-estar dos africanos, mas às instituições que aumentariam o bem-estar.

A visão geral de felicidade

Roger Cohen, escrevendo de Londres para o New York Times nos diz que:

Eu estava pensando sobre alguns momentos recentes de felicidade em minha própria vida. Um deles foi em uma caminhada pelo Regent´s Park, quando senti a primeira brisa da primavera. Outro, foi quando dei um beijo de boa noite em minha filha e ela adormeceu, tranquila.

Da mesma forma, Cohen escreve em defesa da “economia da felicidade” e da proposta de um “índice de felicidade”, conforme sugerido pelo primeiro-ministro Cameron. No entanto, o exemplo de Cohen ilustra o quão distante está a felicidade da política governamental.

Longe de ser uma forma humana de entender as pessoas, a economia da felicidade é uma forma de lobotomizá-los. Quando as pessoas se tornam abstrações, torna-se mais fácil ser um utilitarista e justificar os esquemas de redistribuição du jour. Se você aceita a visão geral, os rostos são distorcidos: a pessoa perde sua identidade, perspectiva e circunstâncias ou, realmente, perde sua história.

O que me torna humano é minha perspectiva, minha vida e minha busca pela felicidade. Imagine políticos tentando medir e desenvolver políticas para aumentar a consciência espiritual ou religiosa. Por sorte, temos limitações constitucionais a esse tipo de coisa. Mas a ideia deveria nos soar como absurdo, mesmo se não formos tão religiosos.

Direto ao ponto: quem é mais bem equipado para encontrar a felicidade: você ou o governo? Eu sei qual é minha resposta: e é no espírito que Jefferson teria concordado com o mais famoso utilitarista de todos, que disse:

Não pode a sociedade pretender que necessite, ao lado de tudo isso, do poder de expedir ordens e impor obediência nos assuntos de natureza pessoal dos indivíduos, assuntos nos quais, segundo todos os princípios de justiça e política, a decisão deve caber a quem lhe suportará as consequências. Seria recorrer ao pior meio, o que tenderia, mais que qualquer outra coisa, a desacreditar e frustrar os melhores processos de influenciar a conduta. Se naqueles que se tenta coagir à prudência ou à temperança houver do material de que se fazem os caracteres vigoroso e independentes, eles, infalivelmente, se rebelarão contra o jugo.

John Stuart Mill percebeu que existem muitas pessoas para as quais a liberdade e a dignidade são mais importantes que a noção de felicidade ou bem de outrem. De outra forma, a liberdade e a dignidade são características da felicidade não facilmente capturadas em questionários pseudocientíficos. Não existe algo como um cálculo hedonista. (Desculpe, Bentham). Não existe forma de ir “além” da liberdade e da dignidade (Desculpe, Skinner). E não existe forma de unir as ideias de Skinner e Bentham para tornar qualquer coisa praticável (Desculpe, Toyama).

A liberdade perturba padrões

Os economistas da felicidade são os novos reis-filósofos. E usarão essa suposta “pesquisa” para justificar todos os tipos de intrusão na vida das pessoas. Mas como o filósofo Robert Nozick disse: “a liberdade acaba com os padrões”. É por isso que não deveríamos somente ser céticos quanto à habilidade de os pesquisadores medirem a felicidade agregada, mas que podem propor políticas baseadas em tais métricas. Deveríamos suspeitar das sugestões daqueles mesmos pesquisadores que a felicidade é algo que pode ser redistribuído, ao respeitar pontos em um gráfico de dispersão. Eu e você, acima de tudo, não somos pontos.

// Tradução de Matheus Pacini. | Artigo Original