“Forward, the Light Brigade!” Was there a man dismay’d? Not tho’ the soldier knew Someone had blunder’d: Theirs not to make reply, Theirs not to reason why, Theirs but to do and die: Into the valley of Death Rode the six hundred

“The Charge of the Light Brigade,” Alfred, Lord Tennyson

A razão para o veneno dirigido para aqueles de nós que questionam o status de herói do sniper americano Chris Kyle pode ser resumida em uma palavra: nacionalismo.

O nacionalismo é um veneno. Ele ataca a mente, dá um curto-circuito no pensamento, e faz a autodestruição parecer atraente. O nacionalismo semeia as sementes do ódio e da guerra. Ele torna o título de guerreiro algo honroso ao invés de, como deveria ser, pejorativo.

Vemos um nacionalismo feio e nu em várias defesas de Kyle. Os defensores parecem ter apenas um único princípio: se Kyle era um militar americano e as pessoas que ele matou não eram americanas, então ele foi um herói. Ponto final. Nenhum outro fato é relevante. Não importa se Kyle era uma engrenagem em uma máquina militar imperial que travou uma guerra de agressão em nome da elite geopolítica reinante e de interesses econômicos, que ele realizou assassinatos em solo estrangeiro, e que nenhum iraquiano veio aos Estados Unidos buscando ferir ele ou qualquer outro americano (ao contrário do que os defensores de Kyle parecem acreditar, não havia nenhum iraquiano entre os sequestradores do 11 de Setembro, e mesmo se fosse o caso, o assassinato de milhões de outros iraquianos e o deslocamento forçado de outros milhões não seriam justificáveis). Tudo que parece importar para muitos fãs de Kyle é que esse homem nasceu nos EUA, se alistou no exército americano, e fielmente obedeceu as ordens para matar as pessoas que ele chamava de selvagens.

Isso é o que o nacionalismo faz ao ser humano.

A feiura do nacionalismo geralmente é perceptível mesmo entre aqueles que o encorajam e cometem atos terríveis como resultado. Então eles racionalizam. Eles não comemoram abertamente o assassinato de iraquianos porque eles são iraquianos (ou árabes, ou muçulmanos); ao invés disso, eles pleiteiam autodefesa; se não os matarmos, eles nos matarão. Kyle e seus camaradas estavam defendendo os EUA e a liberdade americana, dizem seus defensores.

Mas se você tiver assistido ao Sniper Americano, o filme baseado no livro de Kyle, você ouve a esposa de Kyle, Taya, rejeitar essa alegação. Estou surpreso que essa parte do diálogo tenha sido ignorada (até onde eu sei) em toda a polêmica escrita sobre o filme. Quando Kyle está pronto para outra viagem ao Iraque, sua esposa infeliz pergunta por que ele está voltando. “Por você”, ele diz, e por extensão, pelos EUA.

Não, você não está”, ela responde.

Ele também invoca o bem-estar dos iraquianos, dizendo à sua esposa que se ausentar de casa por outro longo período de tempo não seria um problema, porque sua família podia aproveitar o tempo livre, e os iraquianos não. Ela não cai nessa também. Ela está profundamente perturbada que seu marido preferiria tentar corrigir o Iraque (como se ele e seus camaradas pudessem fazer isso através da força militar) do que cuidar de sua família.

É curioso que Taya Kyle (se a cena realmente aconteceu) tinha uma visão mais clara do mundo do que os defensores nacionalistas virulentos de Kyle, que glorificam o sniper por seguir ordens sem questionar (um até aludindo positivamente ao poema de Tennyson).

Se não fosse pelo nacionalismo, tais contorcionismos – a alusão de ameaças imaginárias, o conceito de aspirar salvar uma sociedade que não se sabe nada a respeito, o twisting das condutas do guerreiro em virtudes – seriam desnecessários. As coisas podiam ser chamadas do jeito que são. Alguém que faz um juramento que em termos práticos o obriga a matar quem quer que o ocupante atual do governo o mande matar, “sem questionar se a causa é justa”, seria chamado de assassino de aluguel sangue-frio em vez de herói.

O nacionalismo, ao julgar por como os nacionalistas se comportam, é uma devoção religiosa inabalável à nação, construída como uma entidade quasi-mística – “América” – que não pode estar errada e então tem a autoridade para comandar reverência e obediência. A nação transcende os burocratas políticos particulares, mas o governo, ou estado, é integral à entidade. A nação (país) não pode ser imaginada sem o estado. Não seria a mesma coisa. Quando um nacionalista americano pensa em seu país, ele não pensa apenas em uma massa de terra com características distintas, o povo (na verdade, um grupo diverso), e sua história (uma mistura) porque esta lista não captura totalmente o que eles querem dizer por América.

O governo representa e expressa o desejo e sentimento da nação (para ter certeza, um nacionalista pode pensar que o povo errou ao escolher seus “líderes”, neste caso a nação é mal representada e precisa ser “recuperada”). O poder de compartimentalização permite que algumas pessoas pensem de si como individualistas enquanto enxergam a nação nestes termos associativos.

Vamos lembrar que essa entidade quasi-mística é o que é apenas por causa de vários eventos acidentais efetuados por seres humanos falhos. Os Estados Unidos não começou com 50 estados, é claro. Se os eventos tivessem sido diferentes, poderiam ter incluído parte ou todo o Canadá e nada do que antes era parte do México. Poderia ter sido sem o território da Flórida e as 828.000 milhas quadradas que constituem a compra da Louisiana. As fronteiras atuais foram o resultado da ação humana (geralmente sangrenta), mas não totalmente por planejamento humano. Assim como aconteceu com outras nações. Por um tempo, não havia nações como as pensamos atualmente.

Esquecer, eu até me atreveria a dizer um erro histórico, é um fator crucial na criação de uma nação”, disse Ernest Renan em sua famosa palestra de 1882, “What Is a Nation?”, “que é a causa do progresso em estudos históricos geralmente constituir um perigo para a [o princípio da] nacionalidade. De fato, a pesquisa histórica nos traz à tona atos de violência que ocorreram na origem de todas as formações políticas […] A unidade é sempre efetuada através da brutalidade.” (Ludwig von Mises elogiou Renan e sua palestra no livro Omnipotent Government).

Esta relação integral entre nação e estado é a razão dos nacionalistas rejeitarem alegações que alguém possa amar seu país enquanto despreza o governo. Isto é impossível pela definição deles de país. Se opor ao governo é se opor ao país. Você pode se opor a um presidente em particular, mas não se atreva a se opor ao exército. Agora, você pode tentar redefinir país para torná-lo mais propriamente amável, mas você não irá persuadir um nacionalista.

Não é por acaso que os governos nunca falham em chamar seus rebanhos para “amar seu país”, pelo qual eles querem dizer: estejam dispostos a fazer qualquer sacrifício em seu nome, com “sacrifício” sendo definido por políticos. Instilar nacionalismo sempre é a missão primordial do governo e suas escolas porque, como Ernst Gellner escreveu no livro Nations and Nationalism, “É o nacionalismo que produz as nações, e não o contrário”.

Essa missão está por atrás das recitações quase compulsórias do Juramento de Lealdade (escrito por um confesso coletivista), saúda as “tropas” por “seu serviço” em qualquer e toda ocasião, e por tocar o hino nacional e outras músicas nacionalistas em eventos esportivos. É o que está por trás das certezas repetidas e compulsivas que “os EUA é o maior país da terra”. A elite governante entende que o amor ao país inevitavelmente encontrará sua aplicação em lealdade ao governo, não importa o que os dissidentes possam dizer.

Alguns querem distinguir nacionalismo de patriotismo, mas eu não acho que isso funcione. O patriota tem uma linhagem que inclui as palavras gregas para “pátria-mãe”, patris; “de nossos pais”, patrios; e “pai”, pater. Isto indica a relação parental do país ao cidadão. Não pode somente significar “terra de nossos pais” porque as pessoas acreditam que devem se sentir patrióticas sobre terras que seus pais nunca pisaram. Voltamos à entidade quasi-mística, América. Então minha definição de patriota; aquele que, não importa as dificuldades, coloca o poder acima do partido.

Eu entendo o amor com o lugar que conhecemos quando crianças. Eu entendo o amor pelo lar, família, comunidade, vizinhança, e pessoas com quem se compartilhou experiências e crenças. Eu entendo o amor a princípios virtuosos como expressados em documentos históricos (tais como a Declaração da Independência). Esse tipo de amor não inflama ódio ao outro ou cria admiração ao guerreiro que gosta de matar outros sob comando. Para isso é necessário o veneno do nacionalismo e a obsessão com a nação que é criada.

// Tradução de Robson da Silv | Artigo Original