A violência entre os cartéis de drogas do México e o governo chegou a fronteira americana, e além. Diz o New York Times que

“Nos últimos anos, os cartéis e outras organizações de tráfico estenderam seu alcance aos EUA e ao Canadá. As autoridades policiais dizem acreditar que os traficantes que distribuem maconha, cocaína, heroína, metanfetamina e outras drogas para os cartéis são responsáveis por uma série de tiroteio em Vancouver, British Columbia, sequestros em Phoenix, espancamentos em Birmingham, Ala., e muito mais. As autoridades policiais americanas identificaram 230 cidades… em que os cartéis mexicanos ‘mantém redes de distribuição ou fornecem drogas a distribuidores’, nas palavras de um relatório de dezembro do Department of Justice [Ministério da Justiça americano].”

Será que alguém ainda acha que a “guerra contra as drogas” é uma boa idéia?

Talvez, nessas circunstâncias, algumas pessoas estranhem a pergunta, então vamos olhar as coisas por outro lado. Você já viu notícias no jornal sobre a violência perpetrada na fronteira pelos cartéis mexicanos de uísque e cigarro?

Não? Provavelmente porque não houve essa violência, e esses cartéis não existem.

Então por que há cartéis violentos de maconha, cocaína e heroína, mas não de uísque e cigarros?

Vamos lá, todos juntos: por causa da criminalização.

“Nossa” culpa?

Claro que os políticos culpam a tudo e a todos, exceto a si mesmos, por essa violência crescente. “Nossa demanda insaciável por drogas ilegais alimenta o comércio de drogas”, disse a Secretária de Estado Hillary Clinton. “Nossa demanda”? Dela também? “O fato de não conseguirmos impedir que armas sejam contrabandeadas ilegalmente para estes criminosos em nosso território causa as mortes de policiais, soldados e civis.” A resposta dela, além de enviar ao governo mexicano dinheiro do pagador de impostos, é perseguir os consumidores de drogas e os fabricantes e comerciantes de armas de que ela não gosta.

Os usuários de drogas e os comerciantes de armas são culpados pela violência dos cartéis de drogas? Se fosse assim, as pessoas que bebem e as que fumam também seriam causa de violência. Por que não?

Todos juntos outra vez, numa só voz: por causa da criminalização. Quem inventou a criminalização? Os políticos. Todo político, burocrata e agente que facilita e aplica a criminalização é cúmplice da violência por ajudar a criar as condições em que bandidos têm uma vantagem comparativa no comércio de drogas.

Há anos os defensores do livre comércio de drogas — isto é, os direitos básicos de vida, liberdade e propriedade para os consumidores, produtores e mercadores de drogas — vêm observando que a criminalização, além de ser uma invasão imoral da liberdade pelo Estado, origina uma série de males concretos que prejudicam pessoas inocentes. (Ninguém foi mais coerente e rigoroso em relação a esse assunto do que Thomas Szasz.) Estes males incluem a corrupção policial, crimes violentos, e a expansão do governo intrusivo. Além destes males domésticos, o governo americano antagonizou fazendeiros em outros países ajudando a destruir suas colheitas e meios de subsistência. Se isso não é terrorismo, nada é. A destruição de colheitas tem sido uma instrumento de recrutamento para organizações de guerrilha, enquanto os lucros do mercado negro financiam eles e outros com más intenções.

Poucos deram ouvidos a essas Cassandras contrárias à cruzada antidrogas. Talvez dêem ouvidos agora.

Impotência governamental

Enquanto gangues violentas que ganham dinheiro vendendo drogas no mercado negro matam, sequestram e cometem outras atrocidades, os políticos nada tem a dizer, exceto as mesmas platitudes que repetem há anos. Achando que somos simplórios ou que sofremos de amnésia, esperam que sejamos reconfortados por suas palavras (terão razão?). Prometem desmontar os cartéis, combater o uso de drogas, e acabar com o tráfico de armas. Isso não dá certo. Nunca vai dar certo. Não tem como dar certo. Os operadores do mercado negro estão sempre passos à frente dos lentos burocratas. Destrua uma gangue, e outra surgirá. As drogas continuam vindo (dinheiro para propinas é que não falta) e os consumidores comprarão o que quiserem, quando quiserem. Os lucros possibilitados pelo mercado negro são fortes incentivos para que a indústria continue. O governo é impotente (não consegue nem impedir as drogas de entrar nas prisões!).

Porém, as gangues poderiam desaparecer da noite para o dia. Como? Acabando com as penalizações criminais para a produção, comércio e consumo de todas as drogas; formalizando o mercado negro, de modo que as disputas possam ser resolvidas civilmente e o talento para a violência não seja mais uma vantagem; dissolvendo os lucros extraordinários que as indústrias ilegais sempre conseguem.

Pois é. É fácil assim.

As pessoas vão se assustar. Não podemos fazer isso! Não? Então passe a achar normal a violência inominável que se espalha de cidade em cidade, porque essa é a alternativa à recusa obstinada em acabar com a “guerra contra as drogas”, que é na verdade uma guerra contra pessoas. Nem mesmo as táticas de um Estado completamente policial conseguirão controlá-la, ainda que isso não vá impedir políticos demagogos de tentar usá-las.

A guerra contra as drogas financia carreiras no governo

Não espero que a multidão de funcionários públicos que depende da guerra contra as drogas para sua subsistência e poder venham a defender o fim da criminalização. Eles se mostraram mais do que dispostos a aceitar a violência (contra outros) como preço de sua ambição. A nova ameaça contra nós é uma oportunidade para que eles obtenham mais poder, orçamentos maiores, e salários mais altos.

Mas os demais não temos razão para apoiar o complexo de governo e agências “privadas” bancadas por impostos que engorda com a guerra. As racionalizações desgastadas não aguentam um exame. A criminalização não impede ninguém de obter as drogas que quiser a um preço razoável. Pelo contrário, ela incentiva a criação de drogas mais baratas e mais potentes, exatamente como a criminalização do álcool fez o vinho e a cerveja serem trocados por bebidas mais fortes (mais efeito num formato mais compacto). A criminalização não garante a segurança de nossos filhos. Ela transforma as drogas em atraentes frutos proibidos e empurra o comércio para canais menos visíveis. As drogas não são “perigosas”, ainda que as pessoas possam fazer coisas nocivas com elas — e com muitas outras (recomendo vivamente o livro Saying Yes, de Jacob Sullum, capaz de abrir os olhos de muita gente). O vício não é uma doença; é uma escolha.

Tudo que os guerreiros antidrogas disseram está errado — e muitas vezes eles mentiram deliberadamente. As drogas são para a nossa sociedade aquilo que a Eurásia e a Ásia Oriental eram para a Oceania em 1984, de George Orwell: um demônio convenientemente inventado para justificar a expansão do poder e a usurpação da liberdade — em nome da nossa segurança. O que será necessário, além da atual violência que vem do México, para que as pessoas percebam a mentira? Olhe à sua volta. É dos nossos autoproclamados protetores que mais necessitamos proteção.

Tradução Ordem Livre // Artigo Original