Wolf Blitzer: Você é um médico, Ron Paul. Você entende deste assunto. deixe-me perguntar uma questão hipotética. Um homem saudável de 30 anos tem um bom emprego, vive bem, mas decide: “Sabe de uma coisa? Eu não vou gastar $200 ou $300 por mês por um plano de saúde porque eu sou saudável. Eu não preciso disso”. Mas algo terrível acontece e, de repente, ele precisa do plano de saúde. Quem irá pagar a conta se ele estiver em coma, por exemplo? Quem paga por isso?

Esse é o tipo de pergunta para a qual os liberais geralmente dão respostas estúpidas. O primeiro impulso é enfatizar que ninguém tem o direito de forçar outras pessoas a pagar a sua conta do hospital – o que é verdade, mas é uma maneira esquisita de se começar. Essa resposta trata mostra o livre mercado como sendo igual ao sistema atual, apenas sem os programas de bem-estar social, e deixa a entender que esse problema é provável no livre mercado. Ela também mostra a pessoa doente como uma ameaça contra a liberdade dos demais ao invés de mostrá-la como uma pessoa que pode ser melhor ajudada pelos métodos liberais do que pelos métodos estatistas. Se alguém está procurando acusar os liberais de serem pessoas que querem deixar que os doentes morram, eles encontram aqui um prato cheio.

O impulso da maioria dos liberais é mencionar a caridade. E o seu terceiro impulso, se chegarem a ele, é mencionar o ponto pelo qual eles deveriam ter começado – de que os altos custos dos planos de saúde são produto da regulação estatal.

No último debate republicano dos Estados Unidos, (transcrito aqui), Ron Paul passou pelos três estágios na ordem previsível. Primeiro, demonizando a vítima:

Ron Paul: Bem, em uma sociedade na qual se aceita o estado de bem-estar social e o socialismo, ele espera que o governo tome conta dele… Mas o que ele deveria fazer é o que bem quiser, mas ele deve assumir a responsabilidade por si mesmo. Meu conselho seria que ele tivesse um plano de saúde, mas não forçado. É isso que é a liberdade, enfrentar os seus próprios riscos.

Em seguida, ele passa para a caridade (embora ainda misture um pouco o primeiro estágio):

Ron Paul: Eu exerci medicina antes que houvesse o Medicaid, no início do anos 1960, quando completei a faculdade de medicina. Eu trabalhava em um hospital que era sustentado por igrejas. Nunca rejeitamos ninguém… E desistimos desse conceito de que devemos cuidar de nós mesmos e assumir a responsabilidade por nós mesmos. Nossos vizinhos, nossas igrejas fariam isso.

E apenas então, finalmente, ele passa a falar dos problemas estruturais causados pelas regulações corporativistas. Ele tem crédito, pois realmente chegou ao estágio três, enquanto muitos outros liberais não chegariam. Mas deixá-lo para o final força-o a dar uma explicação superficial e rápida, sem pausa para explicações.

Ron Paul: Toda essa ideia é a razão por que o custo é tão alto. O custo é tão alto porque eles usam o governo. Torna-se burocracia: torna-se interesses especiais. O governo se rende às companhias de seguros e de medicamentos, e além de tudo isso, existe a inflação. A inflação desvaloriza a moeda; ficamos sem competição. Não existe competição em medicina. Todos são protegidos pelas suas licenças. Na verdade, deveríamos legalizar métodos alternativos de medicina, permitindo que as pessoas façam o que quiserem.

Mas quando você começa com o estágio um, é disso que as pessoas se lembrarão; mencionar o estágio três em seguida ficará muito menos gravado na memória dos ouvintes.

O direito de resposta a uma pergunta como a de Blitzer é proceder precisamente na ordem contrária. Comece perguntando o que faz o paciente hipotético agir como age. Em outras palavras, comece com o estágio três. Por que o paciente não pagou por um seguro? Por que o preço é muito alto. Por que o preço é alto? Fale a respeito das maneiras específicas como as políticas corporativistas aumentam os custos médicos (e tiram o poder dos pobres de outras maneiras também.)

Então, se você ainda tiver tempo, passe para o estágio dois. Se alguém não tem um plano de saúde e precisa de cuidados, qual é a maneira mais eficiente de tornar isso possível? Mostre como a caridade e ajuda mútua são mais eficientes que os planos de bem-estar do governo e como precisamos de mudar o tipo de assistência deste para aquele.

E só então você pode finalizar apontando que soluções pacíficas, voluntárias são não apenas pragmaticamente mas moralmente superiores às coercivas.

Não estou dizendo que a solução deve sempre enfatizar considerações consequencialistas ao invés de deontológicas; depende do assunto. Mas este é um dos assuntos que, se começarmos com a questão deontológica, é muito provável que seja recebido como egoísta, e essa percepção tornará obscuro o que quer que seja que você decida falar em seguida – o que foi, previsivelmente, exatamente o que aconteceu após a resposta de Paul no debate.

Esse impulso de começar no estágio um é um erro estratégico e retórico da parte dos liberais; mas não penso que é somente isso. Eu acho que é um sintoma do surgimento incompleto de um paradigma libertário mais inclinado à direita. O primeiro impulso é abordar o assunto como se o sistema atual fosse um livre mercado ou perto disso; e o ponto libertário mais inclinado à esquerda de que qualquer pensamento posterior mencionado não importa. O problema é essa visão em si, não apenas a estratégia de transmiti-la.

Não escrevo isso como um discurso retórico contra Ron Paul. Como eu disse, o fato de que ele usa considerações anti-corporativistas é um ponto em seu favor. Mas a sua recente resposta a respeito do tema foi um exemplo visível de um problema liberal generalizado.

Tradução de Ordem Livre || Original