Uma viagem recente a Cincinnati me deu a oportunidade de conferir o famoso Jungle Jim’s International Market, localizado ao norte da cidade. Sendo amante de todos os tipos de comida, prometeram-me que lá eu encontraria tudo que existe debaixo do sol em um só lugar. E essa promessa foi cumprida, em grande parte, pois o Jungle Jim’s é, de fato, um lugar maravilhoso.

Da fantástica seleção de vinhos à charcutaria aos aquários de peixes às exóticas e obscuras frutas internacionais à área de produtos secos internacionais com seções contendo comidas de vários países ao redor do mundo, incluindo alguns dos menores países da Europa e da América Central, Jungle Jim’s é realmente um paraíso para os amantes de comida. É uma cornucópia. É uma mesa de buffet global gigante. Quanto mais tempo passava lá, porém, mais comecei a pensar sobre o espaço físico daquele mercado como uma metáfora da economia globalizada.

Em Ação Humana, Ludwig von Mises escreveu que: “O mercado não é um lugar, uma coisa, uma entidade coletiva. O mercado é um processo, impulsionado pela interação entre as ações de vários indivíduos cooperando sob a divisão de trabalho.” Esse processo de cooperação, é claro, não se atém às fronteiras nacionais. O mercado, na visão de Mises, se estende pelo globo, à medida em que o intercâmbio por vantagem comparativa cria uma divisão de trabalho muito tênue, o que, por sua vez, facilita o aumento da cooperação e da prosperidade.

O Jungle Jim’s é uma manifestação física desse processo. As prateleiras são abarrotadas com produtos que vêm de diversas partes do mundo, e os clientes são pessoas de todas as classes sociais, vindos das mais diversas localizações geográficas. Eu estava a duas horas de distância da minha casa, e quando contei para meus amigos que estive lá, muitos disseram que criaram uma tradição de sempre parar lá quando passam pela região de Cincinatti. Tenho certeza de que aquele mercado é econômica e geograficamente diverso.

Também é etnicamente diverso. A seleção de comidas internacionais, carne fresca e frutos do mar atrai uma grande variedade de clientes os quais sabem que só vão encontrar o que querem no Jungle Jim’s. Por exemplo, a seção de frutos do mar estava repleta de mulheres asiáticas mais velhas que estavam claramente escolhendo itens frescos que precisavam para o jantar, e elas eram muito precisas sobre como os peixes deveriam ser cortados.

Outros clientes também eram, claramente, imigrantes ou descendentes de imigrantes procurando por comidas de seus países de origem. A possibilidade de encontrar ingredientes ou comidas importadas do mundo todo torna a vida nos Estados Unidos muito melhor, seja você um imigrante recém-chegado ou um cidadão de longa data pertencente a qualquer uma das várias etnias ou nacionalidades.

O Jungle Jim’s é, também, um modelo de interação pacífica e tolerante entre humanos os mais diversos. O comércio não apenas é útil, como também nos torna pessoas melhores.

Não só os clientes se beneficiam de um lugar como o Jungle Jim’s, como também outros produtores. Apesar de não poder saber com certeza, desconfio que vários clientes que estavam lá naquela manhã eram chefs de restaurantes locais e empresas de buffet, os quais sabem que lá podem comprar os ingredientes exóticos de que precisam, sejam eles molhos, pimentas ou frutas frescas. Como consumidores, é claro que apreciamos comida chinesa ou tailandesa ou grega, ou pratos norte-americanos influenciados por essas culturas, mas para isso dependemos da habilidade dos donos desses restaurantes – independente da etnia, nacionalidade ou status de cidadania – de adquirir os ingredientes necessários. Para chefs norte-americanos, a disponibilidade de ingredientes importados a preços razoáveis é crucial para agradar seus clientes norte-americanos e tornar seu negócio bem-sucedido.  

Muito comumente, falamos sobre comércio internacional em relação apenas ao benefício direto aos consumidores. Esses benefícios existem. É importante que o Walmart possa importar bens da China e vendê-los para consumidores dos EUA a preços baixos. Isso é mais útil para nós, (especialmente para os menos afortunados entre nós) do que pensamos.

Mas o que essa abordagem deixa de lado é que metade dos importados dos EUA são, na verdade, insumos na produção de empresas sediadas nos EUA. Isso representa cerca de 8% do Produto Interno Bruto dos EUA. Além disso, muitos desses importadores são, também, exportadores. As empresas que compram insumos importados os usam para fabricar os produtos finais aqui nos EUA e depois exportar alguns deles para o resto do mundo.

Quando começamos a impor limites ao comércio global através de tarifas sobre importação, não estamos prejudicando apenas os produtores desses produtos em outros países. Estamos prejudicando empresários dos EUA que necessitam dessas importações para a sua produção no país (e os empregos atrelados à ela). Aumentar as tarifas sobre produtos secos ou frescos importados torna a comida produzida por chefs norte-americanos em restaurantes que empregam norte-americanos mais cara, desse modo ameaçando a viabilidade dessas empresas e desses empregos.

Se aumentarmos o preço do aço importado, não vamos prejudicar apenas os fabricantes estrangeiros, vamos prejudicar, também, as empresas norte-americanas que precisam desse insumo para a sua produção, inclusive de produtos para exportação.

Parado na encruzilhada de comércio que é o Jungle Jim’s, eu não pude evitar pensar nessas questões. Sob um único teto no subúrbio de Cincinnati há um microcosmo da economia mundial: pessoas com uma variedade de diferentes desejos encontrando formas de satisfazerem-se mutuamente através do comércio. O prédio é uma manifestação física do papel coordenador do processo mercantil. Quando vamos ao Jungle Jim’s, podemos vê-lo. Mas quando olhamos para além do prédio, ele se torna parte do “não-visto” de Bastiat.

A estrutura internacional de leis, direitos e finanças que tornam o comércio possível é a analogia, no processo mercantil, de como a estrutura física do prédio torna possíveis as trocas que ocorrem no Jungle Jim’s. A estrutura institucional é mais difícil de enxergar, nem sempre compreendemos como seu enfraquecimento pode destruir o comércio global da mesma forma que enfraquecer um pilar ou uma viga do Jungle Jim’s pode destruir o comércio lá existente.

Em verdade, a rede invisível de instituições facilitadoras do comércio é o que possibilita que lá haja um prédio visível no qual ocorrem as trocas. Ambos estão profundamente entrelaçados.

Todo mundo que vai ao Jungle Jim’s e desfruta de seus benefícios deveria pensar sobre a existência das estruturas invisíveis que tornam possível a estrutura visível. O processo mercantil mundial, bem como instituições de tratados confessadamente imperfeitos como o NAFTA e organizações como a OMC, são o que possibilita a existência de mercados locais.

Enquanto você degusta seu queijo francês, vinho chileno ou cogumelos búlgaros em conserva, pense sobre a teia invisível de instituições que possibilitam que você consuma esses produtos e que o seu chef local as compre. Depois, pense sobre como essa teia invisível faz o mesmo para os carros importados que você compra, e para os componentes importados que empresas automobilísticas dos EUA compram para fabricar seus carros.

Porque o processo mercantil do comércio mundial não é um lugar ou uma coisa, é fácil esquecê-lo e deixá-lo de lado. Mas assim como o prédio do Jungle Jim’s, ele não pode permanecer de pé sem seus alicerces. Quando enfraquecemos essas instituições e impomos limites ao comércio, nós ameaçamos o sustento e o bem-estar de todos nós.